Dois sonetos de Góngora
- Mariana Amaral
- 22 de jul. de 2025
- 2 min de leitura
Neste post, proponho a tradução dos sonetos “Mientras por competir con tu cabello” (1582) e “Ilustre y hermosísima María” (1583), de Luís de Góngora y Argote (1561-1627), um dos poetas mais influentes do Siglo de Oro espanhol.
O processo de tradução não foi uma tarefa simples. Por conta da dificuldade de recriar todos os elementos do poema na tradução, estabeleci uma espécie de hierarquização, de modo a identificar as características mais significativas, classificá-las de acordo com sua contribuição no efeito do poema e, assim, encontrar suas correspondências. Dessa forma, quanto maior a correspondência entre os elementos, menor será a perda.
Primeiro, priorizei o sentido do poema, de modo que o leitor de língua portuguesa pudesse entendê-lo, por isso as escolhas lexicais foram pautadas na busca por um sentido claro e próximo do pretendido no poema em espanhol. Depois, escolhi manter o sistema de rimas emparelhadas. A métrica foi o último fator considerado e o mais difícil de manter próximo do original, pois a contagem de sílabas poéticas em português e espanhol é distinta – em português, conta-se até a última sílaba tônica, em espanhol, até a última átona.
Enquanto compete com teu cabelo
Ouro polido ao sol reluz em vão,
Enquanto com desprezo, sobre o chão
Fita tua branca frente o lírio belo;
Enquanto o lábio, por querê-lo,
Atrai mais olhares que o abrir da flor em botão
E enquanto triunfa com satisfação
do luzente cristal teu colo belo
Goza colo, cabelo, lábio e frente,
antes que o que foi em tua idade dourada
ouro, lírio, flor, cristal luzente,
Não só em prata ou flor ressecada
se transforme, mas tu e eles juntamente
em terra, em névoa, em pó, em sombra, em nada.
Mientras por competir con tu cabello
Oro bruñido al sol relumbra en vano,
Mientras con menosprecio en medio el llano
Mira tu blanca frente al lilio bello;
Mientras a cada labio, por cogello,
Siguen más ojos que al clavel temprano,
Y mientras triunfa con desdén lozano
Del luciente cristal tu gentil cuello,
Goza cuello, cabello, labio y frente,
Antes que lo que fue en tu edad dorada
Oro, lilio, clavel, cristal luciente,
No sólo en plata o vïola troncada
Se vuelva, más tú y ello juntamente
En tierra, en humo, en polvo, en sombra, en nada.
Ilustre e formosíssima Maria,
Enquanto se vê a qualquer hora
Em tua face a rosada aurora,
Febo em teus olhos, e em tua frente o dia,
Enquanto, com gentil descortesia,
Toca o vento o áureo fio de agora
Que a Arábia em suas veias mora
E o rico Tejo em suas areias cria;
Antes que da idade Febo seja eclipsado,
E o claro dia se torne noite obscura,
Fuja a aurora do mortal nublado;
Antes que o que hoje é áureo tesouro
Vença a branca neve de sua brancura,
Goza, goza a cor, a luz, o ouro.
Ilustre y hermosísima María,
Mientras se dejan ver a cualquier hora
En tus mejillas la rosada aurora,
Febo en tus ojos, y en tu frente el día,
Y mientras con gentil descortesía
Mueve el viento la hebra voladora
Que la Arabia en sus venas atesora
Y el rico Tajo en sus arenas cría;
Antes que de la edad Febo eclipsado,
Y el claro día vuelto en noche obscura,
Huya la aurora del mortal nublado;
Antes que lo que hoy es rubio tesoro
Venza a la blanca nieve su blancura,
Goza, goza el color, la luz, el oro.


